‘Zona sul consome drogas e quem paga o pato são as comunidades’, diz Eike sobre lições de Bangu

0
129

“Pobreza é relativo.” “Querer ser o homem mais rico do mundo” foi “frase estúpida”. “Ser um pavão no meio da comunidade miserável não tem graça nenhuma.” “O Brasil cresce que nem rabo de cavalo, para baixo e para trás.” “Não confio em empresário que não errou.” “Eu me considero sinceramente humilde.”

Aos 62 anos, em um retorno aos holofotes depois de “cinco anos hibernando para resolver megaproblemas”, o magnata Eike Batista continua uma metralhadora de frases de impacto.

Após uma queda livre do posto de sétimo homem mais rico do mundo, dono de uma mansão com um carro de luxo na sala de estar, para a bancarrota, com direito a fotos em um camburão nas páginas policiais de jornais, Eike promete voltar ao topo por meio de um “retorno às origens”.

“Estou voltando à área de mineração com ouro, fertilizantes, e outros, e também na área de nanotecnologia, na área química e na área de materiais, onde está o grafeno e a hidroxiapatita”, diz.

O caminho inclui investimentos em dez novos unicórnios, palavra que repete diversas vezes em mais de uma hora de entrevista à BBC News Brasil. “Unicórnios são aqueles investimentos que têm potencial de rapidamente render bilhão de dólares. E o meu negócio essencialmente é vender minha expertise para esses negócios.”

Por que o futuro do agronegócio depende da preservação do meio ambiente no Brasil
Número de tribos isoladas dobra na América do Sul, mas maioria está em situação de risco
Clique para assinar o canal da BBC News Brasil no YouTube
Ele recorre em liberdade de uma condenação de 30 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro – segundo a sentença do juiz Marcelo Bretas, do braço fluminense da Operação Lava Jato, Eike pagou US$ 16,6 milhões (o equivalente na época a R$ 51,9 milhões) ao então governador Sergio Cabral (MDB). Também foi condenado a uma multa de mais de R$ 500 milhões por falta de transparência em negociações de ações da petroleira OGX.

Eike rebate todas as acusações, ao mesmo tempo em defende a meritocracia (“Total, né? No fundo, não importa etnia”) e que afirma ter se transformado após três meses na cadeia – um lugar “desumano”, nas palavras do empresário.

“Aprendi lá em Bangu que tem muita gente que vai para lá, jovens, que não são ressocializados. Isso para mim é gravíssimo”, diz. “A gente tem que entender que aquele jovem virou um avião e transportou não sei o que e foi pego no transporte e está ali por um tempo que não deveria.”

O empresário ficou pobre, como muitos dizem nas redes sociais? Ele mesmo responde – confira a seguir os principais trechos da entrevista e assista à versão mais longa no canal da BBC News Brasil no YouTube.


“Aprendi lá em Bangu que tem muita gente que vai para lá, jovens, que não são ressocializados. Isso para mim é gravíssimo”, diz Eike
BBC News Brasil – O senhor ainda mora naquela mansão do Jardim Botânico?

Eike Batista – Sim, eu moro naquela casa que eu construí 40 anos atrás.

BBC News Brasil – Muita gente disse, logo depois que a tormenta começou, que Eike teria ficado pobre. Não parece ser bem assim.

Batista – Na verdade, o meu verdadeiro patrimônio está na minha cabeça. Olha, pobre é muito relativo. Eu sou um cara modesto, de família de classe média. Óbvio, moro numa casa bacana, muito bonita, mas é um patrimônio que eu construí com os negócios que criei. Na vida do dia a dia, eu não sou um cara de badalar. Você nunca me viu em festas. Se eu saí em dez festas em dez anos, é muito. Então, você pode ter uma vida bem modesta. Eu gosto mesmo é de trabalhar. Ir do meu escritório para casa, tenho um filho pequeno que me dá muita alegria. É isso.

BBC News Brasil – Modesto, mas tinha uma Lamborghini brilhante na sala de estar.

Batista – É, mas essa Lamborghini já estava bloqueada há muito tempo. Eu só estava lá como fiel depositário. Não podia usar.

BBC News Brasil – Doeu vê-la ir embora?

Batista – Não, de novo, são bens materiais e não me apego a isso, não. Até pela maneira que eu consertei as minhas empresas: eu não me importei em abrir mão do meu patrimônio para resolver com credores e deixar os projetos, na verdade legados, continuarem. Esse desprendimento da riqueza. Em vez de brigar na Justiça, eu preferi abrir mão e vendi meus ativos muito barato para novos sócios que assumiram todas as obrigações e colocaram esses maravilhosos projetos em produção.

Você vai se surpreender se eu disser que hoje as empresas empregam mais do que antes. Então, ao contrário das empreiteiras, que demitiram dezenas de milhares de trabalhadores, eu não, os meus projetos continuaram. A minha empresa de petróleo foi a única que realmente foi megarreduzida, mas ela foi sempre um investimento de alto risco. Eu achei que poderia ganhar muito com ela e na verdade esses projetos de petróleo têm esse lado de alto risco, inclusive é importante sempre frisar que, em investimentos dessa natureza, é a natureza que arbitra você de certa maneira. A nossa perspectiva era uma e quando chegaram os resultados eles foram um terço, ou menos, e isso causou na verdade o efeito dominó em todas as empresas que a gente tinha e que me forçaram a vendê-las baratas. Mas eu nunca deixei nenhuma delas morrer. Mais uma prova desse desprendimento de dinheiro.

BBC News Brasil – O que o sr. está fazendo agora além de escrever em caixa alta no Twitter e bater papo com a garotada por lá?

Batista – Ah, caixa alta é meu pai. Na idade mais avançada, ele tinha dificuldade para ler a letra pequena e achava importante escrever assim e me habituei. Acho que a gente tem que ter a liberdade de escrever como acha certo, então eu escrevo em caixa alta. Em relação aos unicórnios, eu voltei à minha origem, que é a mineração, onde construí 12 minas no Brasil, no Chile, nos EUA, no Canadá, e onde eu sempre tive sucesso. Então, estou voltando à área de mineração com ouro, fertilizantes e outros, e também na área de nanotecnologia, na área química e na área de materiais, onde está o grafeno e a hidroxiapatita.

De novo, unicórnios são aqueles que têm potencial de rapidamente render bilhão de dólares. E o meu negócio essencialmente é vender minha expertise para esses negócios e como resultado ganhar um percentual grande desses ativos. Muita gente tem ativos e não sabe polir eles. Você pode olhar um monte de diamantes numa mesa e um cara vai te dar um preço por aquilo, mas eventualmente tem uma pedra ali que vale dez vezes o preço. Então eu sei identificar e engenheirar projetos, especialmente na área mineral.


Filho de ex-presidente da antiga Vale do Rio Doce e condenado por corrupção, Eike defende meritocracia: “Ganha mais quem trabalha mais, muito simples”
BBC News Brasil – Houve um hiato, né? O senhor ficou um tempo fora dos holofotes. O que um homem que teve uma queda tão grande tem a ensinar a essa nova geração que está curiosa em te ouvir?

Batista – Eu fiquei cinco anos hibernando para resolver esses megaproblemas. Resolver US$ 25 bilhões em dívidas, reestruturar isso de maneira que os projetos ficassem em pé, para mim foi um orgulho e muito trabalho. Não tinha muito o que se falar nessa fase. Em paralelo, comecei a cultivar esses novos unicórnios e o que tenho a dizer para os jovens é: olha, se você tem boas ideias, sonhos, obstinação, é uma parte fundamental disso. Mas também não aquela obstinação boba. Gaste até 10% do seu capital eventual para estudar profundamente o negócio que você está pretendendo fazer.

Faça uma pesquisa de mercado se você, sei lá, está abrindo uma padaria, uma franquia, e não entre no oba-oba. Vejo muito que muita gente acha que sua ideia foi espetacular, que o produto que vai produzir na padaria é o melhor pão da praça. Tenha a humildade de fazer um estudo ao seu redor. É o que eu chamo de método 360 graus de você estudar os assuntos. Você tem que ser bom na engenharia de pessoas, na engenharia jurídica – a papelada tem que estar toda em ordem, engenharia de pessoas – você tem que escolher as pessoas certas. Eu não tinha bola de cristal para avaliar desonestidade de pessoas com falta de caráter. Isso me força hoje a ficar mais próximo de todos os negócios e realmente analisar pessoa por pessoa. Isso bate muito no empresário que está começando porque você tem que escolher ou o sócio certo e ou os colaboradores certos.

BBC News Brasil – Autoavaliação: em que o sr. mudou, lá da pujança, no início dos anos 2000, até aqui? O que aprendeu naqueles três meses em Bangu, em que é diferente hoje?

Batista – Olha, primeiro, aquela frase estúpida de “eu quero ser o mais rico do mundo…” Eu quero ser o mais generoso, se existe isso. Quero ser um cidadão que consiga ajudar a comunidade mais ainda. Segundo, eu aprendi lá em Bangu que tem muita gente que vai para lá, jovens, que não são ressocializados. Isso para mim é gravíssimo. A mídia fala muito disso também, outro dia vi um negócio do (Drauzio) Varella, aquele médico que era médico em presídios também. Ele obviamente falou com muita propriedade sobre isso também. A gente precisa fazer algo para aqueles jovens não ficarem lá dentro e serem ali aliciados para facções e tudo mais. Isso realmente não pode acontecer. Não sei, vou tentar bolar fórmulas aí, assim que eu começar a gerar riqueza de novo numa escala para poder mudar esse quadro. Não sei direito ainda, mas ali eu aprendi isso. Ali acontecem injustiças que… Pegando o que você falou, né? A gente tem que entender que aquele jovem virou um avião e transportou não sei o que e foi pego no transporte e está ali por um tempo que não deveria.

BBC News Brasil – O sr. considera a legalização das drogas um caminho?

Batista – Olha, se estão fazendo no mundo e está funcionando… Eu não sou estudioso nessa área e não queria opinar muito nisso, não, porque vão usar isso de alguma maneira, então não quero opinar porque não sou expert na área. Mas eu sinto que a criminalização como é, porque quem consome é a zona sul, né? Eu por acaso não consumo e isso não faz parte da minha vida. Mas a zona sul consome e quem paga o pato na hora do embate são as comunidades mais carentes. Então tem um erro aí. Não é pode ser!

BBC News Brasil – O sr. aprendeu isso em Bangu?

Batista – Não, eu já tinha essa consciência antes, mas lá você vê um jovem, uma pessoa em formação, que é jogada em um ambiente que… Se as cadeias fossem lugares para ressocialização, tudo bem, como na Europa, sei lá, em outros lugares, mas as instalações não são adequadas. Outra coisa que é uma vergonha, esse negócio das quentinhas, onde também tem corrupção, na maior parte das vezes o arroz não tinha nem sal, né? Você pode confundir aquilo com plástico, você tá comendo um plástico. Então é muito desumano.

BBC News Brasil – Qual foi a cena mais forte? Aquela que você não esquece…

Batista – Eu sou um cara comunicativo, eu me integro. Só para lembrar, eu comecei minha vida comprando ouro em garimpo. Eu dormia numa rede. Então, as pessoas não sabem avaliar… Ah, o Eike bilionário. Não, não, não. Eu sou um jovem de classe média que teve uma educação fantástica, e pai e mãe como excelentes exemplos. Mas viver a coisa simples, para mim não importa. É um desafio, passei por isso, você aprende sempre. Acho que sempre, com as pessoas que me conhecem, eu sou um cara humilde. Acho que, falando com a mídia, que eu percebia sempre como provocativa, na minha visão, e não entendia o tempo que era necessário para projetos funcionarem, eu me considero um cara sinceramente humilde.


“Eu nunca tive um contrato com o governo! Eu não prestava serviços, não tinha nada para oferecer, nunca recebi um cheque deles”, diz Eike sobre acusações de propina a Sergio Cabral (foto)
BBC News Brasil – Um argumento que o sr. deu para a Justiça e tem repetido é que você não sabia do que estava acontecendo, do suposto esquema de propinas ou pagamentos, mas que talvez houvesse pessoas a seu redor que soubessem e estivessem fazendo esses atos. “Não ter bola de cristal” é o argumento mais frequente em casos de corrupção. Como quer que se acredite que o sr., este “homem 360” como mesmo se apresenta, não saberia?

Batista – Acabei de falar: você não tem bola de cristal, numa empresa de 20 mil funcionários, para saber o que todo mundo está fazendo. Talvez mais importante do que tudo, a gravação onde o réu confesso Sérgio Cabral diz com clareza que “com Eike Batista não teve toma lá dá cá”. Nunca teve, essencialmente por quê? Os meus projetos começaram sempre quando não tinha nada. O meu superporto (Porto do Açu), que hoje todo mundo preza como um imenso legado, que é, nasceu numa fazenda que tinha bosta de vaca, não tinha nada lá. Inclusive a placa de inauguração foi na época da ex-governadora (Rosinha) Garotinho. É até curioso. Com certeza, o governo, prefeituras e governadores, eles quando não viam nada deviam achar: “esse Eike aí vai investir muito dinheiro, vai empregar gente e para nós é bom, mas ele deve ser totalmente louco”. Porque eu desenhava coisas que muita gente, inclusive a mídia, dizia que não ia ficar pronto, que ia afundar, que já afundou. E hoje está aí esse colosso que serve o Brasil. Principalmente o Brasil do pré-sal, sem o Açu, ia ter grandes dificuldades de ser desenvolvido. Só para dar um exemplo de que os meus negócios não precisavam de autoridades. Eu nunca tive um contrato com o governo! Eu não prestava serviços, não tinha nada para oferecer, nunca recebi um cheque deles.

BBC News Brasil – Mas, o sr. queria, por exemplo, administrar o Maracanã…

Batista – Não, olha que engraçado. Eu queria colocar o conteúdo da minha empresa IMX, a empresa que tinha conteúdo. Dentro da IMX eu tinha o Cirque de Soleil, o ATP de tênis, enfim. Era uma empresa de eventos, que hoje pertence a Mubadala (Development Group) – eles chamam de IMM – e depois levar o conteúdo lá para dentro. Então, nós saímos. Eu era simplesmente alguém que ia aportar conteúdo, não ser sócio do negócio. No início até interessou. Depois, quando entraram os empreiteiros, não preciso te dizer que eles me tiraram de tudo o que é negócio. O meu estaleiro do Açu não recebeu uma encomenda de navios porque já estava alocado para eles. Eu não tenho nada a ver com isso e agora está na hora de falar isso porque, de novo, a oportunidade do próprio Sérgio Cabral, onde se criou essa acusação inicial comigo, (disse) “com Eike Batista nunca teve toma lá da cá” porque eu nunca precisei.

BBC News Brasil – O sr. emprestava o seu avião para Sérgio Cabral por quê?

Batista – Excelente situação. Eu tinha três aviões e o governador sabia que o meu avião estava no pátio e muitas vezes me perguntavam: “ah, o governador pediu um negócio que fica difícil você negar”. Só para lembrar que é importante, e quero te questionar se você sabe disso: houve aquele infeliz acidente, acho que com um familiar da família Cabral, e eu aproveitei logo em seguida a oportunidade para dizer “Eu nunca mais empresto um avião para políticos”. Você lembra disso?

BBC News Brasil – Não me lembro.

Batista – Então, por favor! Foram três vezes que emprestei o meu avião, nessa base do “pô, me empresta aí, eu sei que o avião está lá”, você empresta mesmo. E a infelicidade que aconteceu com esse acidente, eu aproveitei a oportunidade e disse, olha, eu nunca mais empresto as minhas aeronaves para políticos e foi o que aconteceu.

BBC News Brasil – O sr. decidiu limpar a lagoa Rodrigo de Freitas: pelo que entendi, foi uma retirada de sedimentos do fundo que gerava uma mortandade enorme de peixes. Isso foi um favor para o Rio de Janeiro? O almoço era de graça para o governador do Rio? Você limpou a lagoa por caridade?

Batista – Eu limpei a lagoa pelo meu profundo senso de comunidade. O governador não tinha nada para me dar. O que ele tinha para me dar? Nada, não tinha nada. Obviamente temos governadores que enxergam projetos que começam como nada e vão virar coisas muito grandes, mas são poucos. E eu coloco a mídia nisso também. No quarto, quinto ano, quando eu era muito cobrado por atrasos e tudo mais.

BBC News Brasil – Minha pergunta é se o sr. não percebeu algo de esquisito no comportamento do Cabral? Não estamos falando de um esquema pequeno de corrupção.

Batista – Ricardo, veja bem. Os empreiteiros me quebraram, né? Na encomenda das plataformas, eu construí um estaleiro, gastei bilhão num estaleiro, porque da mesma maneira que o meu conceito de gerar energia era o mais barato e eu ia ganhar o leilão, os equipamentos que a Petrobras encomendava, encomendava só com carta marcada. Então, eu estava fora. Eu não fazia parte desse grupo. Eu nunca fiz. Só para você saber, que é importantíssimo: nenhuma dessas empreiteiras da Lava Jato trabalhou nos meus projetos. Curioso, né?

BBC News Brasil – E se o Cabral tinha esse esquema com as empreiteiras, como o sr. mesmo está dizendo, por que ele não te assediaria?

Batista – Porque ele não tinha nada para me dar. Eu não tinha um contrato seja de prestação de serviços, ou construir alguma coisa. O governador participava do negócio do Metrô, tinha que ser a canetada dele lá para a empreiteira poder cobrar um bilhão, dez bilhões, e pagar de volta, né? Eu não tinha nada para receber do governador! Nada, absolutamente nada. Eu não tinha quentinha para oferecer, para receber dinheiro de alguma secretaria… Nada! É tão óbvio.

Você sabe disso: uma mentira dita duas ou três vezes, ela vira uma verdade. Quando ela é escrita, então, e eu estudei isso um pouco, isso é gravado aqui em uma parte do cérebro, fica marcado de uma maneira que a mentira vira verdade mesmo. E, hoje, o triste é o seguinte: na mão de outros, o que? Todo mundo está feliz que o porto do Açu hoje pertence a empresas estrangeiras. Tudo bem, que estejam. Poderia estar na mão de um brasileiro. Mas vou fazer o quê? Essa história foi assim que aconteceu.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here